24 de jul de 2018

Bolsonaro exagera no teatro ao atacar o centrão

Josias de Souza


Toda campanha eleitoral tem um quê de teatro. A teatralização da sucessão de 2018 viveu um momento inusitado quando Jair Bolsonaro criticou o rival tucano por encostar a candidatura no centrão. “Obrigado, Geraldo Alckmin, por ter unido a escória da política brasileira”, declarou. A ironia de Bolsonaro é primária e ridícula. É primária porque o capitão apenas cospe num prato em que Valdemar Costa Neto, o dono do PR, não permitiu que ele comesse. É ridícula porque até as crianças sabem que o centrão não reúne toda a escória da política. O PSL, legenda de Bolsonaro, também é parte do rebotalho.

Os apalogistas de Bolsonaro não percebem, mas o candidato exagera na encenação. A bordo do sétimo mandato parlamentar, apresenta-se como uma fulgurante novidade, única alternativa contra os maus costumes. Há no projeto presidencial de Jair Bolsonaro uma insustentável teatralização do novo. A bordo do seu sétimo mandato parlamentar, o candidato apresenta-se como uma fulgurante novidade, única alternativa contra os maus costumes. Mas o público não foi devidamente ensaiado para tapar o nariz diante do histórico do Partido Social Liberal.

A agremiação que Bolsonaro escolheu para abrigar seu projeto presidencial compôs, ao lado do centrão, a milícia parlamentar de Eduardo Cunha. Na época em que Cunha desfilava sua amoralidade pelos corredores da Câmara, o PSL tinha dois deputados federais: o líder Alfredo Kaefer (PR) e a liderada Dâmina Pereira (MG). Ambos acompanharam o ex-presidente da Câmara até a beira do abismo. O mandato de Cunha foi interrompido por 450 votos a 10. Alfredo escondeu-se atrás da abstenção. Dâmina votou contra a cassação.

Na apreciação das duas denúncias criminais contra Michel Temer, a bancada do PSL, acrescida do suplente de deputado Luciano Bivar (PE), presidente nacional da legenda, juntou-se à ala dos coveiros. Luciano, Alfredo e Dâmina ajudaram a sepultar as acusações da Procuradoria, impedindo o Supremo Tribunal Federal de converter Temer em réu, o que levaria ao seu afastamento do cargo. Hoje, Bolsonaro sapateia sobre a impopularidade de Temer e inclui Luciano Bivar no rol de opções de vice para sua chapa.

Numa eleição como a atual, de resultado imprevisível, um dos maiores desafios do eleitor é não confundir certos candidatos com candidatos certos. A Lava Jato fez do Brasil o local ideal no mapa para o surgimento de um país inteiramente novo. Caos não falta. Contudo, a teatralização da ética revela que o novo pode ser uma coisa muito antiga no país.



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